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Poesia – Álvaro de Campos – o que há – o que há em mim

Poesia – Álvaro de Campos – O que há

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço

    A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço

    Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser… 

    E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Poemas de Álvaro de Campos: Obra Poética IV. Porto Alegre. L&PM, 2006

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Sobre a Autora

psicanalista, doutora em psicologia clínica pela PUC-SP. graduada em psicologia pela FMU-SP, realiza atendimentos clínicos presenciais e on-line, grupos de estudos, orientações e suporte ao processo de escrita de monografias e dissertações, bem como, desenvolve atividades e artigos sobre a clínica psicanalítica no contexto das manifestações poéticas e analíticas,

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