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Vera Canhoni

Uma parceira sedutora – Crônica Psicanálitica – Vera Canhoni

 

Entrou na sala da analista com os cabelos em desalinho e com aquela velha e conhecida inquietação no olhar…

Deitou-se no divã e sem vaidade e pudor se deixou apoderar pelas palavras.

Havia saído do mar da noite e já não podia esconder os efeitos do marulhar das ondas em seu corpo.

Mas o êxtase logo se extinguiu e, como um náufrago, sem bússola ou direção, se afogou nas suas reminiscências, nos seus desencontros e desatinos, nos desdobramentos da sua juventude.

Feito uma sombra ácida e pegajosa ela me contamina…

Você já sabe seu nome; não é preciso pronunciar…

Sorrateira, silenciosa e venenosa como uma serpente, ela me enlouquece e me alucina. A mais fiel e sedutora parceira.

Quem diria!

Permaneço desamparado e sem norte.

E numa espécie de sedutor às avessas, agora sou servo dos meus pecados; dos meus insaciáveis ímpetos juvenis…

Elas se vingam. Todas elas. Uma a uma…

E da forma mais cruel, mais repugnante, incontrolável e ameaçadora das maneiras.

Como um filhote assustado em noites que nunca terminam, permaneço acuado e perseguido por essa que não cessa de deitar-se em minha cama; na mais sedutora e absoluta nudez.

Quem diria!

Aquela que eu jamais elegeria!

Que ironia e (des) graça!

Como uma mulher enredada em todo meu ser…

A insônia…minha insônia..

A medusa de olhares fatais…

 

 

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