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Vera Canhoni

Surpresa – matéria psíquica da análise – Degustação psicanalítica

Surpresa – matéria psíquica da análise – Degustação psicanalítica

Em o sonhar restaurado Tales Ab’Sáber nos brinda com uma riquíssima reflexão sobre a instauração do novo no campo analítico; na radicalidade mesma da surpresa, a matéria sutil de um vir-a-ser.

Surpresa – matéria psíquica da análise

Muitas facetas da alma podem se apresentar em nosso dispositivo analítico, preparado em nossa sala e em nosso método, em nosso ritmo e em nossa própria alma, para receber e revelar algo desconhecido de quem cuidamos.

 

Surpresa e campo afetivo: angústia – intimidade e humor


Eu diria que a surpresa é um elemento do trabalho, da mesma forma que a angústia nele contida, ou a intimidade por ele construída, ou o humor por vezes liberado, assim como o indissolúvel campo afetivo que ele sempre cria.

Por vezes, nosso trabalho é também muito doloroso, e a surpresa pode compartilhar a dor.

Aliás, sobre a sua faceta dolorosa, talvez seja importante notarmos o quanto aquilo que chamamos de compulsão à repetição pode ser o negativo da surpresa, ou melhor dizendo, a surpresa negativa do retorno ao sempre o mesmo.


Surpresa – sustentação potencial da análise


Mas é a surpresa em sua radicalidade de um inteiramente novo que constitui um importante componente do trabalho, matéria psíquica que move a análise e a ligação da alma com o mundo, o que expressa a vida.

Esta é a matéria por excelência da análise e é assim que nós, que somos “psicanalistas treinados”, podemos achar, sempre em nossa ingenuidade egóica, que em algum momento estaremos preparados para as piruetas radicais do inconsciente e daquilo que é potencial em análise.


Surpresa e indeterminação – matéria de um vir-a-ser


Ao contrário de nossos pacientes, para nós há algo de cotidiano nesta matéria não cotidiana, e alguns dos momentos de reflexão clínica mais importantes da psicanálise contemporânea dizem respeito exatamente a mantermos vivo o campo da surpresa, da indeterminação; dizem respeito a não reificarmos a alma com saberes distantes do ato psíquico em jogo, a permitirmos a instauração do novo pelo paciente em nós e no mundo, e podermos nos oferecer como matéria sutil de um vir-a-ser – matéria por vezes muito estranha a nós mesmos -, e não apenas como pobres e espertas máquinas de interpretar.

 

Ab’Sáber, Tales A.M O sonhar restaurado: formas do sonhar em Bion, Winnicott e Freud. São Paulo: Ed 34, 2005.

 

 

 
 
 
 
 
 

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