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Vera Canhoni

Poesia – Cecília Meireles – Rimance

Rimance

Onde é que dói na minha vida,

para que eu me sinta tão mal?

quem foi que me deixou ferida

de ferimento tão mortal?

Eu parei diante da paisagem:

e levava uma flor na mão.

eu parei diante da paisagem

procurando um nome de imagem

para dar à minha canção.

Nunca existiu sonho tão puro

como o da minha timidez.

Nunca existiu sonho tão puro,

nem destino tão duro

como o que para mim se fez.

Estou caída num vale aberto,

entre serras que não têm fim.

Estou caída num vale aberto:

nunca ninguém passará perto,

nem terás noticias de mim.

Eu sinto que não tarda a morte,

e só há por mim esta flor;

eu sinto que não tarde a morte

e não sei como é que suporte

tanta solidão sem pavor.

E sofro mais ouvindo um rio

que ao longe canta pelo chão,

que deve se límpido e frio,

mas sem dó nem recordação,

como a voz cujo murmúrio

morrerá com o meu coração…

 

Meireles, C. Obra poética.  Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S/A, 1987

 

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