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Vera Canhoni

Poesia – A ilusão do migrante – Drummond

Poesia – A ilusão do migrante – Drummond 

A ilusão do migrante

Quando vim da minha terra,

se é que vim da minha terra

(não estou morto por lá?),

a correnteza do rio

me sussurrou vagamente

que eu havia de quedar

lá donde me despedia.

 

Os morros, empalidecidos

no entrecerrar-se da tarde,

pareciam me dizer

que não se pode voltar,

porque tudo é consequência

de um certo nascer ali.

 

Quando vim, se é que vim

de algum para outro lugar,

o mundo girava, alheio

à minha baça pessoa,

e no seu giro entrevi

que não se vai nem se volta

de sitio algum a nenhum.

 

Que carregamos as coisas,

moldura da nossa vida,

rígida cerca de arame,

na mais anônima célula,

e um chão, um riso, uma voz

ressoma incessantemente

em nossas fundas paredes.

 

Novas coisas sucedendo-se,

iludem a nossa fome

de primitivo alimento.

As descobertas são máscaras

do mais obscuro real,

essa ferida alastrada

na pele de nossas almas.

Quando vim da minha terra,

não vim, perdi-me no espaço,

na ilusão de ter saído.

Ai de mim, nunca saí.

Lá estou eu, enterrado

por baixo de falas mansas,

por baixo de negras sombras,

por baixo de lavras de ouro,

por baixo de gerações,

por baixo, eu sei, de mim mesmo,

este vivente enganado, enganoso.

 

DRUMMOND, C.A. Farewell, Rio de Janeiro, Editora Record, 2007

 

Psicanálise: atendimentos clínicos – uma jornada para ser si mesmo.

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