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Vera Canhoni

Poesia – Fernando Pessoa – Intervalo

Poesia – Fernando Pessoa – Intervalo

 

 

Quem te disse ao ouvido esse segredo

Que raras deusas têm escutado –

Aquele amor cheio de crença e medo

Que é verdadeiro só se é segredado?…

Quem to disse tão cedo?

Não fui eu, que te não ousei dizê-lo

Não foi um outro, porque não o sabia.

Mas quem roçou da testa teu cabelo

E te disse ao ouvido o que sentia?

Seria, alguém, seria?

Oi foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?

Foi só qualquer ciúme meu de ti

Que o supôs dito, porque o não direi,

Que o supôs feito, porque o só fingi

Em sonhos que nem sei?

Seja o que for, que foi que levemente,

A teu ouvido vagamente atento,

Te falou desse amor em mim presente

Mas que não passa do meu pensamento

Que anseia e que não sente?

Foi um desejo que, sem corpo ou boca,

A teus ouvidos de eu sonhar-te disse

A frase eterna, imerecida e louca –

A que as deusas esperam da ledice

Com que o Olimpo se apouca.

 

PESSOA, F. Ficções do Interlúdio: organização Fernando Cabral Martins. São Paulo,Companhia das Letras, 1998

 

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