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Escrita: endereçamento e experiência – Lispector – palavras – sons e sombras – Vera Canhoni


Cada dia é um dia roubado da morte.
 
Eu não sou um intelectual, escrevo com o corpo.
 
E o que escrevo é uma névoa úmida.
 
As palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais, estalactites, renda, música transfigurada de órgão.
 
Mal ouso clamar palavras a essa rede vibrante e rica, mórbida e obscura tendo como contratom o baixo grosso da dor.
 
Alegro com brio.
 
Tentarei tirar ouro do carvão…
 
Juro que este livro é feito sem palavras.
 
É uma fotografia muda. Este livro é um silêncio.
 
Este livro é uma pergunta.
 
Transgredir, porém, os meus próprios limites me fascinou de repente.
 
E foi quando pensei em escrever sobre a realidade, já que essa me ultrapassa.
Qualquer que seja o que quer dizer “realidade”.
 
Mas que ao escrever – que o nome real seja dada às coisas.
Cada coisa é uma palavra. E quando não se a tem, inventa-se.
 
Esse vosso Deus que nos mandou inventar.
 
Por que escrevo? Antes de tudo porque captei o espírito da língua e assim às vezes a forma é que faz conteúdo.
 
Sim, minha força está na solidão.
 
Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.

Lispector, C. A hora da estrela. Rio de Janeiro, Rocco, 1998.

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Sobre a Autora

Vera Canhoni
Formada em Psicologia pela FMU e com mestrado e doutorado em psicologia clínica pela PUC-SP, desenvolve e publica artigos sobre a clínica psicanalítica no contexto das manifestações analíticas, sobretudo com pacientes adultos e adolescentes.

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